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Data: ___/___/______
Fuvest 2010 · Primeira fase · Questão 25 · Objetiva
Português · Humor, Ironia, Semântica e sentido contextual
Texto para a questão 3
Desde pequeno, tive tendência para personificar as
coisas. Tia Tula, que achava que mormaço fazia mal,
sempre gritava: “Vem pra dentro, menino, olha o
mormaço!”Mas eu ouvia o mormaço com M maiúsculo.
Mormaço, para mim, era um velho que pegava crianças!
Ia pra dentro logo. E ainda hoje, quando leio que alguém
se viu perseguido pelo clamor público, vejo com estes
olhos o Sr. Clamor Público, magro, arquejante, de preto,
brandindo um guarda-chuva, com um gogó protuberante
que se abaixa e levanta no excitamento da perseguição. E
já estava devidamente grandezinho, pois devia contar uns
trinta anos, quando me fui, com um grupo de colegas, a
ver o lançamento da pedra fundamental da ponte
Uruguaiana-Libres, ocasião de grandes solenidades, com
os presidentes Justo e Getúlio, e gente muita, tanto assim
que fomos alojados os do meu grupo num casarão que
creio fosse a Prefeitura, com os demais jornalistas do
Brasil e Argentina. Era como um alojamento de quartel,
com breve espaço entre as camas e todas as portas e
janelas abertas, tudo com os alegres incômodos e
duvidosos encantos de uma coletividade democrática.
Pois lá pelas tantas da noite, como eu pressentisse, em
meu entredormir, um vulto junto à minha cama, sentei-me
estremunhado e olhei atônito para um tipo de chiru, ali
parado, de bigodes caídos, pala pendente e chapéu
descido sobre os olhos. Diante da minha muda
interrogação, ele resolveu explicar-se, com a devida
calma:
- Pois é! Não vê que eu sou o sereno...
Mário Quintana, As cem melhores crônicas brasileiras.
Glossário:
estremunhado: mal acordado.
chiru: que ou aquele que tem pele morena, traços acaboclados (regionalismo: Sul do Brasil).
No contexto em que ocorre, a frase “estava devidamente grandezinho, pois devia contar uns trinta anos” (L. 11 e 12) constitui
- recurso expressivo que produz incoerência, uma vez que não se usa o adjetivo “grande” no diminutivo.
- exemplo de linguagem regional, que se manifesta também em outras partes do texto, como na palavra “brandindo”.
- expressão de nonsense (linguagem surreal, ilógica), que, por sinal, ocorre também quando o autor afirma ouvir o M maiúsculo de “mormaço”.
- manifestação de humor, irônico, o qual, aliás, corresponde ao tom predominante no texto.
- parte do sonho que está sendo narrado e que é revelado apenas no final do texto, principalmente no trecho “em meu entredormir”.
Rascunho