Fuvest 2012 · Primeira fase · Questão 43 · Objetiva

Português · Leitura de textos literários, Realismo, Escravidão

Texto para as questões 13, 14, 15, 16 e 17

Passaram-se semanas. Jerônimo tomava agora,
todas as manhãs, uma xícara de café bem grosso, à
moda da Ritinha, e tragava dois dedos de parati “pra
cortar a friagem”.
Uma transformação, lenta e profunda, operava-se
nele, dia a dia, hora a hora, reviscerando-lhe o corpo e
alando-lhe os sentidos, num trabalho misterioso e surdo
de crisálida. A sua energia afrouxava lentamente: fazia-
se contemplativo e amoroso. A vida americana e a
natureza do Brasil patenteavam-lhe agora aspectos
imprevistos e sedutores que o comoviam; esquecia-se
dos seus primitivos sonhos de ambição, para idealizar
felicidades novas, picantes e violentas; tornava-se
liberal, imprevidente e franco, mais amigo de gastar que
de guardar; adquiria desejos, tomava gosto aos
prazeres, e volvia-se preguiçoso, resignando-se,
vencido, às imposições do sol e do calor, muralha de
fogo com que o espírito eternamente revoltado do último
tamoio entrincheirou a pátria contra os conquistadores
aventureiros.
E assim, pouco a pouco, se foram reformando todos
os seus hábitos singelos de aldeão português: e
Jerônimo abrasileirou-se. (...)
E o curioso é que, quanto mais ia ele caindo nos
usos e costumes brasileiros, tanto mais os seus
sentidos se apuravam, posto que em detrimento das
suas forças físicas. Tinha agora o ouvido menos
grosseiro para a música, compreendia até as intenções
poéticas dos sertanejos, quando cantam à viola os seus
amores infelizes; seus olhos, dantes só voltados para a
esperança de tornar à terra, agora, como os olhos de
um marujo, que se habituaram aos largos horizontes de
céu e mar, já se não revoltavam com a turbulenta luz,
selvagem e alegre, do Brasil, e abriam-se amplamente
defronte dos maravilhosos despenhadeiros ilimitados e
das cordilheiras sem fim, donde, de espaço a espaço,
surge um monarca gigante, que o sol veste de ouro e
ricas pedrarias refulgentes e as nuvens toucam de alvos
turbantes de cambraia, num luxo oriental de arábicos
príncipes voluptuosos.

Aluísio Azevedo, O cortiço.

Os costumes a que adere Jerônimo em sua transformação, relatada no excerto, têm como referência, na época em que se passa a história, o modo de vida

  1. dos degredados portugueses enviados ao Brasil sem a companhia da família.
  2. dos escravos domésticos, na região urbana da Corte, durante o Segundo Reinado.
  3. das elites produtoras de café, nas fazendas opulentas do Vale do Paraíba fluminense.
  4. dos homens livres pobres, particularmente em região urbana.
  5. dos negros quilombolas, homiziados em refúgios isolados e anárquicos.
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