Fuvest 2016 · Primeira fase · Objetiva
Português · Leitura de textos literários, Modernismo
Texto para as questões de 52 a 53.
CONFIDÊNCIAS DO ITABIRANO
Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.
A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres
e sem horizontes.
E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.
De Itabira trouxe prendas que ora te ofereço:
este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil;
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa...
Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!
Carlos Drummond de Andrade, Sentimento do Mundo
No texto de Drummond, o eu lírico
- considera sua origem itabirana como causadora de deficiências que ele almeja superar.
- revela-se incapaz de efetivamente comunicar-se, dado o caráter férreo de sua gente.
- ironiza a si mesmo e satiriza a rusticidade de seu passado semirrural mineiro.
- dirige-se diretamente ao leitor, tornando assim patente o caráter confidencial do poema.
- critica, em chave modernista, o bucolismo da poesia árcade mineira.
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Transcrição conferida com a prova original. Fonte da coletânea: Grupo Exatas. Revisada em 07/09/2026. Encontrou um erro? Reportar erro