Matemática I · Frente 3 · Capítulo 1 · p. 216-229 · Poliedro

Ferramentas básicas da Geometria

O quadro é o principal componente de uma bicicleta. Ele precisa ser forte, rígido e leve, e isso pode ser conseguido com a combinação de diferentes formas e materiais. Os modelos mais comuns são baseados geometricamente na forma de triângulos.

O triângulo é a forma mais estável entre os polígonos. Uma de suas principais características é apresentar maior rigidez. As propriedades métricas e trigonométricas dos triângulos têm sua base no triângulo retângulo, que será o principal objeto de estudo deste capítulo. Assim, partiremos desse tipo de triângulo para abordar o teorema de Pitágoras e suas aplicações, bem como as razões trigonométricas.

O triângulo retângulo

Noções iniciais

Observando duas retas ou dois segmentos de reta, ao percebermos que não há paralelismo entre elas, surge de imediato a noção de inclinação relativa entre essas figuras. A grandeza dessa inclinação relativa pode ser mensurada com base no conceito de ângulo.

Ângulos e o ângulo reto

As figuras geométricas formadas pela reunião dos pontos de duas semirretas de mesma origem são denominadas ângulos retilíneos. Esses ângulos costumam ser medidos em graus ou radianos.

Quando três pontos estão sobre uma mesma reta, eles determinam um ângulo raso, cuja medida é 180180^\circ.

Repare que o ângulo raso equivale a dois ângulos de 9090^\circ, e cada um desses ângulos é chamado de ângulo reto.

Para indicar o ângulo reto, utilizamos o símbolo (0,0.22) – (0,0) – (0.22,0); (0.075,0.075) circle (0.5pt);.

Os ângulos de medida entre 00^\circ e 9090^\circ são denominados agudos, e aqueles cujas medidas estão entre 9090^\circ e 180180^\circ recebem o nome de ângulos obtusos.

Os ângulos retos são aqueles determinados por duas retas concorrentes quando os quatro ângulos formados tiverem a mesma medida (forem congruentes). Nesse caso, as retas serão perpendiculares.

Essa situação pode ser observada em diversas figuras geométricas. Vejamos alguns exemplos:

  • Alturas de polígonos como triângulos, trapézios, paralelogramos ou pentágonos estão contidas em retas que são perpendiculares às bases desses polígonos.

  • Toda reta tangente a uma circunferência é perpendicular ao raio que une o centro da circunferência ao ponto onde ocorre a tangência.

  • A distância de um ponto P até uma reta rr é representada por um segmento perpendicular à reta com uma extremidade em P e outra em rr. Nesse caso, a extremidade da distância que está contida na reta rr é denominada projeção ortogonal do ponto P sobre essa reta.

Definição de triângulo retângulo

Triângulos são formas geométricas que possuem três lados e três ângulos. Um importante teorema, conhecido como teorema angular de Tales, diz que as medidas dos ângulos internos de qualquer triângulo somam sempre o mesmo que um ângulo raso (180180^\circ). Assim, supondo que α\alpha, β\beta e γ\gamma são as medidas dos três ângulos internos de um triângulo, temos:

Dizemos que um triângulo é retângulo quando um de seus ângulos é reto (de medida 9090^\circ). Assim, os outros dois ângulos são agudos e suas medidas somam 9090^\circ.

Os lados de um triângulo retângulo são chamados de hipotenusa e catetos. A hipotenusa é o lado oposto ao ângulo reto e o maior lado do triângulo retângulo. Desse modo, na figura:

  • AB\overline{AB} é a hipotenusa do triângulo, logo BC\overline{BC} e AC\overline{AC} são os catetos;
  • AC\overline{AC} é o cateto oposto ao ângulo de medida β\beta ou o cateto adjacente ao ângulo de medida α\alpha;
  • BC\overline{BC} é o cateto adjacente ao ângulo de medida β\beta ou o cateto oposto ao ângulo de medida α\alpha.

Áreas

Outro conceito que precisaremos recordar é de cálculo de áreas simples, como retângulos, quadrados e triângulos retângulos.

A área pode ser entendida como uma medida de superfície. E, para medir a extensão de uma superfície, criamos uma superfície padrão (unidade de área) e a comparamos com outras superfícies. A superfície padrão mais comum é um quadrado de lado unitário, que passará a ser nossa superfície de área unitária. Cobrimos, assim, a superfície com esse padrão, de maneira que não haja sobreposição, e contamos o número de quadrados unitários. Esse número é a área da superfície. Caso não consigamos cobri-la inteiramente, recorremos a quadrados cada vez menores, que cabem um número inteiro de vezes em nosso quadrado unitário, em um processo de aproximações sucessivas.

O quadrilátero mais simples para medirmos a área é o retângulo. Por ter quatro ângulos retos, nós o utilizaremos como referência para o cálculo de área dos outros quadriláteros. Veja a figura:

O retângulo da figura tem lados de 4 cm e 6 cm. É fácil ver que cabem 46=244 \cdot 6 = 24 quadrados de 1 cm21\ \text{cm}^2 em sua superfície. Por isso, sua área é igual a 24 cm224\ \text{cm}^2.

De acordo com exemplos como esse, vamos definir a área do retângulo de base bb e altura hh como o produto bhb \cdot h.

O quadrado é um retângulo de lados congruentes. Assim, a área de um quadrado de lado \ell é igual a =2\ell \cdot \ell = \ell^2.

Um triângulo retângulo de catetos bb e cc e hipotenusa aa pode ser entendido como metade de um retângulo de lados bb e cc. Logo, a área do triângulo retângulo de catetos bb e cc pode ser dada por bc2\dfrac{b \cdot c}{2}.

O teorema de Pitágoras

O teorema de Pitágoras diz respeito aos triângulos retângulos, ou seja, aos triângulos que possuem um ângulo reto (9090^\circ). Os lados que formam esse ângulo reto são os catetos desse triângulo, e o lado oposto a esse ângulo é a hipotenusa do triângulo. O teorema diz:

Para entender o teorema de Pitágoras, podemos interpretar esse enunciado da seguinte forma: a área do quadrado cujos lados têm a mesma medida que a hipotenusa de um triângulo retângulo é igual à soma das áreas dos quadrados cujos lados medem o mesmo valor que os catetos do triângulo.

A figura a seguir, por exemplo, permite verificar o teorema para o caso particular do triângulo de lados 3, 4 e 5. Veja que a área do quadrado de lado a=5a = 5 (medida da hipotenusa) é 25, enquanto as áreas dos quadrados com lados b=4b = 4 e c=3c = 3 (catetos) são, respectivamente, iguais a 16 e 9. Temos que 16+9=2516 + 9 = 25, ou seja, b2+c2=a2b^2 + c^2 = a^2.

Exemplos como esse podem tornar o resultado crível, mas não são uma justificativa geral ou uma demonstração. Há um grande número de demonstrações desse teorema. Vejamos uma delas, atribuída ao próprio Pitágoras.

Os dois quadrados da figura acima têm lados de medida b+cb + c. Ao remover os triângulos retângulos de catetos bb e cc dos dois quadrados (os triângulos em amarelo), as áreas remanescentes devem ser iguais. Do lado esquerdo sobrou um quadrado de lado aa (em roxo) e, do lado direito, um quadrado de lado bb (em azul) e um de lado cc (em verde). Assim, a área da superfície roxa (a2a^2) é igual à soma das áreas das superfícies azul (b2b^2) e verde (c2c^2).

O primeiro aspecto prático do teorema de Pitágoras é a facilidade com que se pode encontrar a medida de um dos lados de um triângulo retângulo conhecendo as medidas dos outros dois.

Para encontrar o comprimento da hipotenusa de um triângulo retângulo, basta somarmos os quadrados das medidas dos catetos e extrair a raiz quadrada dessa soma. Assim, se os catetos medem 3 cm e 5 cm, por exemplo, a soma dos quadrados de suas medidas é 9 cm2+25 cm2=34 cm29\ \text{cm}^2 + 25\ \text{cm}^2 = 34\ \text{cm}^2 e, portanto, a hipotenusa desse triângulo tem 34\sqrt{34} cm de comprimento.

Para achar o comprimento de um cateto, basta subtrairmos do quadrado da medida da hipotenusa o quadrado da medida do outro cateto, extraindo, em seguida, a raiz quadrada dessa diferença. Assim, se o cateto de um triângulo mede 3 cm e a hipotenusa mede 7 cm, por exemplo, a diferença dos quadrados das medidas desses valores é 49 cm29 cm2=40 cm249\ \text{cm}^2 - 9\ \text{cm}^2 = 40\ \text{cm}^2 e, por conseguinte, o outro cateto desse triângulo tem 40\sqrt{40} cm de comprimento, ou seja, 2102\sqrt{10} cm.

Vejamos alguns exemplos clássicos de aplicações do teorema de Pitágoras.

Exercício resolvido 1

Calcule a diagonal de um retângulo de lados 8 cm e 15 cm.

Exercício resolvido 2

Quanto mede a diagonal de um quadrado de lado \ell?

Exercício resolvido 3

Quanto mede a altura de um triângulo isósceles de lados 4 cm, 6 cm e 6 cm?

Exercício resolvido 4

Calcule a altura de um triângulo equilátero de lado \ell.

Exercício resolvido 5

Um trapézio isósceles tem bases que medem 16 cm e 40 cm e lados que medem 20 cm. Quanto mede a altura desse trapézio?

Exercício resolvido 6

Um triângulo escaleno ABC tem lados com as seguintes medidas: AB=14AB = 14 cm, AC=13AC = 13 cm e BC=15BC = 15 cm. Calcule a altura relativa ao lado AB\overline{AB}.

Exercício resolvido 7

Sejam duas circunferências: a primeira de centro A e raio 12 cm e a segunda de centro B e raio 5 cm. Sabendo que a distância entre os dois centros é AB=25AB = 25 cm, calcule o comprimento do segmento tangente externo comum às duas circunferências.

Exercício resolvido 8

Sejam duas circunferências: a primeira de centro A e raio 5 cm, e a segunda de centro B e raio 3 cm. Sabendo que a distância entre os dois centros é AB=17AB = 17 cm, calcule o comprimento do segmento tangente interno comum às duas circunferências.

Observação: Nas condições dos exercícios resolvidos 7 e 8, há dois segmentos tangentes externos congruentes e dois segmentos tangentes internos congruentes.

Triângulos pitagóricos

Vimos, nos exemplos anteriores, que alguns triângulos retângulos têm lados com medidas representadas por números inteiros, e outros, não. Aqueles triângulos retângulos cujos lados são representados por inteiros são chamados de pitagóricos. Quando os lados são números primos entre si, recebem o nome de pitagóricos primitivos, que são:

  • o triângulo de lados 3, 4 e 5, pois 52=32+425^2 = 3^2 + 4^2 e mdc(3,4,5)=1\operatorname{mdc}(3, 4, 5) = 1;
  • o triângulo de lados 5, 12 e 13, pois 132=52+12213^2 = 5^2 + 12^2 e mdc(5,12,13)=1\operatorname{mdc}(5, 12, 13) = 1.

São pitagóricos não primitivos 6, 8 e 10 e 10, 24 e 26 porque, apesar de satisfazerem o teorema de Pitágoras (verifique!), temos mdc(6,8,10)=21\operatorname{mdc}(6, 8, 10) = 2 \neq 1 e mdc(10,24,26)=21\operatorname{mdc}(10, 24, 26) = 2 \neq 1. Observe que (6,8,10)(6, 8, 10) são números proporcionais a (3,4,5)(3, 4, 5), o que faz com que os triângulos sejam semelhantes. Dizemos que esses dois triângulos são da família (3,4,5)(3, 4, 5), da qual (3,4,5)(3, 4, 5) é o primitivo. A mesma observação se aplica a (5,12,13)(5, 12, 13) e (10,24,26)(10, 24, 26).

Podemos demonstrar que todo triângulo pitagórico primitivo (a,b,c)(a, b, c) pode ser obtido pelo procedimento a seguir:

  1. Escolhemos dois números inteiros positivos mm e nn, m>nm > n, mm e nn primos entre si e de paridades diferentes.
  2. Determinamos as medidas dos lados desta forma:

O quadro a seguir indica alguns pitagóricos obtidos pelo método dado.

mmnnaabbcc
21543
3213125
4117815
43\Rightarrow25247
52292021
5441409

O mais famoso dos pitagóricos é o triângulo de medidas 3, 4 e 5.

Exercício resolvido 9

Mostre que o único triângulo pitagórico primitivo que tem lados em progressão aritmética é o triângulo 3, 4, 5.

Observação: Todos os triângulos semelhantes ao (3,4,5)(3, 4, 5), ou seja, com lados (3r,4r,5r)(3r, 4r, 5r), com rr real e positivo, terão os lados em progressão aritmética.

Exercício resolvido 10

Fuvest-SP Uma escada de 25 dm de comprimento se apoia num muro do qual seu pé dista 7 dm. Se o pé da escada se afastar mais 8 dm do muro, qual o deslocamento verificado pela extremidade superior da escada?

  1. 4 dm.
  2. 5 dm.
  3. 6 dm.
  4. 7 dm.
  5. 8 dm.

Triângulos notáveis

Alguns triângulos retângulos, por serem tão comuns em problemas, acabaram ganhando o apelido de triângulos notáveis. Aqui, destacaremos dois: o triângulo de ângulos 3030^\circ, 6060^\circ e 9090^\circ; e o triângulo retângulo e isósceles.

Observe na figura a seguir o triângulo ABC de ângulos 3030^\circ, 6060^\circ e 9090^\circ, o qual chamaremos, daqui em diante, (30,60,90)(30^\circ, 60^\circ, 90^\circ). Em torno do lado AC\overline{AC}, vamos fazer uma rotação de 180180^\circ (reflexão), colocando o ponto B na posição B'.

O triângulo ABB' é equilátero, pois, se BC=aBC = a, teremos AB=AB=2aAB' = AB = 2a e BB=2BC=2aBB' = 2BC = 2a.

Sendo AC=xAC = x e aplicando o teorema de Pitágoras ao triângulo ABC, teremos:

x2+a2=(2a)2x2=4a2a2x2=3a2x=+3a2x=a3x^2 + a^2 = (2a)^2 \Rightarrow x^2 = 4a^2 - a^2 \Rightarrow x^2 = 3a^2 \Rightarrow x = +\sqrt{3a^2} \Rightarrow x = a\sqrt{3}

A conclusão a que chegamos é que o triângulo (30,60,90)(30^\circ, 60^\circ, 90^\circ) sempre terá os lados proporcionais aos números (1,3,2)(1, \sqrt{3}, 2), ou seja, lados de medidas (a,a3,2a)(a, a\sqrt{3}, 2a), aR+a \in \mathbb{R}_+^*, com aa oposto ao ângulo de 3030^\circ, 3a\sqrt{3}a oposto ao ângulo de 6060^\circ, e 2a2a oposto ao ângulo de 9090^\circ.

Outro triângulo notável é o triângulo retângulo e isósceles. Veja as figuras seguintes:

O triângulo ABC, retângulo em B, tem os catetos com a mesma medida, digamos aa, ou seja, AB=BC=aAB = BC = a. Assim, os ângulos A^\hat{A} e C^\hat{C} possuem, ambos, medida 4545^\circ. Como podemos ver na figura, o triângulo ABC é metade de um quadrado de lado aa, e sua hipotenusa AC\overline{AC} é a diagonal desse quadrado, com medida AC=a2AC = a\sqrt{2}.

Logo, os lados do triângulo retângulo e isósceles têm medidas proporcionais a (1,1,2)(1, 1, \sqrt{2}), ou seja, são da forma (a,a,a2)(a, a, a\sqrt{2}).

Vejamos alguns exemplos de aplicação dessas ideias.

Exercício resolvido 11

Um avião decola de maneira que a trajetória forme um ângulo de 6060^\circ com o solo, supostamente plano e retilíneo. Após o deslocamento de 10 km em linha reta, determine a que altura o avião se encontra em relação ao solo.

Exercício resolvido 12

Determine a altura relativa à hipotenusa de um triângulo retângulo e isósceles de perímetro igual a 2 cm.

Exercício resolvido 13

Tião está fazendo sua tradicional caminhada matinal em uma praia ideal, supostamente retilínea. Seu percurso se dá em linha reta, paralela ao mar, em velocidade constante. Ao chegar ao ponto A, avista um barco firmemente ancorado no ponto N, formando 3030^\circ com o prolongamento de sua trajetória. Em seguida, ele caminha mais 4(3+1)4\left(\sqrt{3} + 1\right) km e encontra o amigo Marcão no ponto B. Olhando para o navio, que ficou parado, Tião conclui que a linha que os liga ao navio (NB\overline{NB}) e o segmento de reta que acaba de percorrer (AB\overline{AB}) formam um ângulo de 4545^\circ. Após fornecer todas essas informações a Marcão, ele pergunta:

  1. Qual é a distância do navio à praia? (trajetória de Tião)
  2. Quanto mede AN\overline{AN}?
  3. Quanto mede NB\overline{NB}?

Sabendo que Marcão acertou as respostas, determine o que ele respondeu.

Observação: O método utilizado na resolução do exercício resolvido 13 é recomendável também em triângulos de ângulos (30,45,105)(30^\circ, 45^\circ, 105^\circ) ou (45,60,75)(45^\circ, 60^\circ, 75^\circ).

O triângulo retângulo e as razões trigonométricas

Como vimos, um dos ângulos de um triângulo retângulo mede 9090^\circ e os outros dois são agudos e complementares. Na figura do triângulo ABC a seguir, temos que:

  • a hipotenusa do triângulo é AB\overline{AB};
  • o cateto oposto ao ângulo de medida α\alpha é BC\overline{BC};
  • o cateto adjacente ao ângulo de medida β\beta também é BC\overline{BC};
  • o cateto adjacente ao ângulo de medida α\alpha é AC\overline{AC};
  • o cateto oposto ao ângulo de medida β\beta também é AC\overline{AC}.

As razões trigonométricas seno, cosseno e tangente de ângulos agudos são definidas como quocientes entre os comprimentos de determinados lados de um triângulo retângulo. Em relação aos ângulos de medidas α\alpha e β\beta no triângulo ABC da figura anterior, encontramos:

De acordo com essas razões trigonométricas, obtemos:

α+β=90{sen(α)=cos(β)sen(β)=cos(α)tg(α)tg(β)=1\alpha + \beta = 90^\circ \Rightarrow \begin{cases} \sen(\alpha) = \cos(\beta) \\ \sen(\beta) = \cos(\alpha) \\ \operatorname{tg}(\alpha) \cdot \operatorname{tg}(\beta) = 1 \end{cases}

Como a hipotenusa é o maior lado do triângulo retângulo, os valores de seno e cosseno de ângulos agudos sempre serão positivos e menores que 1. Já a tangente pode assumir qualquer valor real positivo.

Se dois triângulos retângulos têm os mesmos ângulos, eles são semelhantes e, portanto, apresentam os lados proporcionais. Observe a figura a seguir:

Os triângulos ABC e AB'C' são semelhantes. Portanto:

Podemos concluir que, para qualquer par de triângulos semelhantes, os valores das funções trigonométricas de um de seus ângulos agudos são iguais para os dois triângulos, pois os lados aumentam proporcionalmente. Isso significa que o valor do seno, do cosseno ou da tangente de um ângulo agudo é uma característica do ângulo, e não do triângulo particular do qual ele faz parte.

Se a hipotenusa de um triângulo retângulo tem medida unitária, as medidas dos seus catetos coincidirão com o seno e o cosseno de um mesmo ângulo agudo desse triângulo.

hipotenusa=1{cateto oposto=senocateto adjacente=cosseno\text{hipotenusa} = 1 \Rightarrow \begin{cases} \text{cateto oposto} = \text{seno} \\ \text{cateto adjacente} = \text{cosseno} \end{cases}

A sentença algébrica que expressa o teorema de Pitágoras, nesse triângulo retângulo de hipotenusa unitária, é conhecida como relação fundamental da Trigonometria.

Essa relação é válida para qualquer ângulo agudo θ\theta (no curso de Trigonometria, você verá que essa relação também é válida para todos os ângulos, agudos ou não).

Vejamos o exemplo: no triângulo ABC, de medidas AB=5AB = 5 cm, BC=3BC = 3 cm e AC=4AC = 4 cm, determine as funções trigonométricas dos ângulos agudos.

Já vimos que o triângulo 3, 4, 5 é retângulo. Assim, temos:

sen(α)=cos(β)=BCAB=3 cm5 cm=35=0,6cos(α)=sen(β)=ACAB=4 cm5 cm=45=0,8tg(α)=BCAC=3 cm4 cm=34=0,75tg(β)=ACBC=4 cm3 cm=431,3\begin{gather*} \sen(\alpha) = \cos(\beta) = \frac{BC}{AB} = \frac{3\ \text{cm}}{5\ \text{cm}} = \frac{3}{5} = 0{,}6 \\ \cos(\alpha) = \sen(\beta) = \frac{AC}{AB} = \frac{4\ \text{cm}}{5\ \text{cm}} = \frac{4}{5} = 0{,}8 \\ \operatorname{tg}(\alpha) = \frac{BC}{AC} = \frac{3\ \text{cm}}{4\ \text{cm}} = \frac{3}{4} = 0{,}75 \\ \operatorname{tg}(\beta) = \frac{AC}{BC} = \frac{4\ \text{cm}}{3\ \text{cm}} = \frac{4}{3} \cong 1{,}\overline{3} \end{gather*}

Observe que:

sen2(α)+cos2(α)=(0,6)2+(0,8)2=0,36+0,64=1  e  tg(α)tg(β)=3443=1\sen^2(\alpha) + \cos^2(\alpha) = (0{,}6)^2 + (0{,}8)^2 = 0{,}36 + 0{,}64 = 1 \ \text{ e }\ \operatorname{tg}(\alpha) \cdot \operatorname{tg}(\beta) = \frac{3}{4} \cdot \frac{4}{3} = 1

Exercício resolvido 14

Determinado ângulo agudo α\alpha tem sen(α)=23\sen(\alpha) = \dfrac{2}{3}. Calcule o valor de tgα\operatorname{tg}\alpha.

Além das três razões trigonométricas que acabamos de estudar, existem três outras razões entre as medidas dos lados de um triângulo retângulo, que são: a secante (sec), a cossecante (cossec) e a cotangente (cotg).

Embora se acredite que as primeiras razões trigonométricas, usadas na Antiguidade pelos babilônios e egípcios, tenham sido a secante e a cotangente, elas são, atualmente, chamadas de auxiliares e costumam ser definidas com base no seno, no cosseno ou na tangente.

Ângulos notáveis

Para alguns (poucos) ângulos, podemos calcular as razões trigonométricas com base em construções geométricas simples. São bastante conhecidas as construções para os ângulos de 3030^\circ, 4545^\circ e 6060^\circ, conhecidos como ângulos notáveis. Existem outras construções para ângulos de 3636^\circ, 1818^\circ, 7272^\circ, 1515^\circ, 7575^\circ, ..., entre outros. Aqui nos ateremos aos notáveis: 3030^\circ, 4545^\circ e 6060^\circ.

Vamos usar novamente o triângulo notável (30,60,90)(30^\circ, 60^\circ, 90^\circ).

No triângulo ABC, com med(A^)=30\operatorname{med}(\hat{A}) = 30^\circ, med(B^)=90\operatorname{med}(\hat{B}) = 90^\circ, med(C^)=60\operatorname{med}(\hat{C}) = 60^\circ, AB=a3AB = a\sqrt{3}, BC=aBC = a e AC=2aAC = 2a, temos:

sen(60)=cos(30)=a32a=32cos(60)=sen(30)=a2a=12tg(30)=aa3=1333=33tg(60)=a3a=3\begin{gather*} \sen(60^\circ) = \cos(30^\circ) = \frac{a\sqrt{3}}{2a} = \frac{\sqrt{3}}{2} \\ \cos(60^\circ) = \sen(30^\circ) = \frac{a}{2a} = \frac{1}{2} \\ \operatorname{tg}(30^\circ) = \frac{a}{a\sqrt{3}} = \frac{1}{\sqrt{3}} \cdot \frac{\sqrt{3}}{\sqrt{3}} = \frac{\sqrt{3}}{3} \\ \operatorname{tg}(60^\circ) = \frac{a\sqrt{3}}{a} = \sqrt{3} \end{gather*}

Agora, vamos utilizar o triângulo retângulo e isósceles, de ângulos (45,45,90)(45^\circ, 45^\circ, 90^\circ) e lados (a,a,a2)(a, a, a\sqrt{2}).

Da figura, obtemos:

sen(45)=cos(45)=aa2=1222=22tg(45)=aa=1\begin{gather*} \sen(45^\circ) = \cos(45^\circ) = \frac{a}{a\sqrt{2}} = \frac{1}{\sqrt{2}} \cdot \frac{\sqrt{2}}{\sqrt{2}} = \frac{\sqrt{2}}{2} \\ \operatorname{tg}(45^\circ) = \frac{a}{a} = 1 \end{gather*}

Podemos resumir esses resultados no quadro a seguir:

3030^\circ4545^\circ6060^\circ
sen12\dfrac{1}{2}22\dfrac{\sqrt{2}}{2}32\dfrac{\sqrt{3}}{2}
cos32\dfrac{\sqrt{3}}{2}22\dfrac{\sqrt{2}}{2}12\dfrac{1}{2}
tg33\dfrac{\sqrt{3}}{3}113\sqrt{3}

Os valores dessa tabela são amplamente utilizados nos exames vestibulares no Brasil e, muitas vezes, não são fornecidos. Por isso, é recomendável que sejam memorizados.

Às vezes, temos dúvidas do tipo: “ao dobrarmos o ângulo, dobramos também o seno ou a tangente?”. Infelizmente, ângulos e suas respectivas razões trigonométricas não são proporcionais. Se fossem, teríamos absurdos como 32=sen(60)=sen(230)=2sen(30)=212=1\dfrac{\sqrt{3}}{2} = \sen(60^\circ) = \sen(2 \cdot 30^\circ) = 2 \cdot \sen(30^\circ) = 2 \cdot \dfrac{1}{2} = 1. Neste caso, o erro é: o seno de 6060^\circ não é o dobro do seno de 3030^\circ. Para calcular as razões trigonométricas, existem algumas construções elementares para poucos ângulos (1515^\circ, 1818^\circ, 3030^\circ, 3636^\circ, 4545^\circ, 6060^\circ, 7575^\circ, ...), mas não para todos eles. Aliás, calcular uma razão trigonométrica de um ângulo agudo envolve várias técnicas matemáticas e experimentais diferentes, a maioria fora do escopo do Ensino Médio. Em geral, os resultados dessas razões são apresentados em tabelas trigonométricas. Veja um exemplo:

Tabela das razões trigonométricas
ângulosencostgângulosencostgângulosencostgângulosencostg
00,0001,0000,000230,3910,9210,424460,7190,6951,036690,9340,3582,605
10,0171,0000,017240,4070,9140,445470,7310,6821,072700,9400,3422,747
20,0350,9990,035250,4230,9060,466480,7430,6691,111710,9460,3262,904
30,0520,9990,052260,4380,8990,488490,7550,6561,150720,9510,3093,078
40,0700,9980,070270,4540,8910,510500,7660,6431,192730,9560,2923,271
50,0870,9960,087280,4690,8830,532510,7770,6291,235740,9610,2763,487
60,1050,9950,105290,4850,8750,554520,7880,6161,280750,9660,2593,732
70,1220,9930,123300,5000,8660,577530,7990,6021,327760,9700,2424,011
80,1390,9900,141310,5150,8570,601540,8090,5881,376770,9740,2254,331
90,1560,9880,158320,5300,8480,625550,8190,5741,428780,9780,2084,705
100,1740,9850,176330,5450,8390,649560,8290,5591,483790,9820,1915,145
110,1910,9820,194340,5590,8290,675570,8390,5451,540800,9850,1745,671
120,2080,9780,213350,5740,8190,700580,8480,5301,600810,9880,1566,314
130,2250,9740,231360,5880,8090,727590,8570,5151,664820,9900,1397,115
140,2420,9700,249370,6020,7990,754600,8660,5001,732830,9930,1228,144
150,2590,9660,268380,6160,7880,781610,8750,4851,804840,9950,1059,514
160,2760,9610,287390,6290,7770,810620,8830,4691,881850,9960,08711,430
170,2920,9560,306400,6430,7660,839630,8910,4541,963860,9980,07614,301
180,3090,9510,325410,6560,7550,869640,8990,4382,050870,9980,05219,081
190,3260,9460,344420,6690,7430,900650,9060,4232,145880,9990,03528,636
200,3420,9400,364430,6820,7310,933660,9140,4072,246890,9990,01757,290
210,3580,9340,384440,6950,7190,966670,9210,3912,356901,0000,000-
220,3750,9270,404450,7070,7071,000680,9270,3752,475

Vejamos alguns exercícios com problemas que envolvem razões trigonométricas.

Exercício resolvido 15

Considere o retângulo ABCD a seguir, em que a base mede 12 e a altura 5. Determine a distância do vértice A à diagonal BD\overline{BD}.

Exercício resolvido 16

Unesp Um ciclista sobe, em linha reta, uma rampa com inclinação de 3 graus a uma velocidade constante de 4 metros por segundo. A altura do topo da rampa em relação ao ponto de partida é 30 m.

Use a aproximação sen3=0,05\sen 3^\circ = 0{,}05 e responda. O tempo, em minutos, que o ciclista levou para percorrer completamente a rampa é:

  1. 2,5
  2. 7,5
  3. 10
  4. 15
  5. 30

Exercício resolvido 17

Determine, em função das medidas aa e bb dos catetos do triângulo ABC, o lado do quadrado nele inscrito, como mostra a figura.

Exercício resolvido 18

Faça uma tabela com os valores dos senos, cossenos e tangentes dos ângulos de 1515^\circ e 7575^\circ.

Questões para praticar

Questões de vestibular dos assuntos deste capítulo.

Transcrição conferida com a obra original (Matemática I, Poliedro, p. 216-229). Revisada em 07/09/2026. Encontrou um erro? Reportar erro