Matemática I · Frente 1 · Capítulo 3 · p. 43-47 · Poliedro

Função do 1º grau

Quanto custará uma corrida de táxi ou quanto pagarei de celular este mês? Respostas para questões simples como essas dependem de muitas variáveis. Trajeto e extensão, tarifa por minuto e minutos utilizados interferem, respectivamente, na primeira e na segunda resposta. Há diversos outros fatores que podem alterar esses valores, mas é em momentos corriqueiros como esses que a Matemática surge como ferramenta, pois, com a criação de alguns modelos, podemos identificar leis que regem alguns comportamentos. Verificando como algumas variáveis se relacionam, podemos antecipar seus resultados. Coletando dados de grandezas que variam linearmente, é possível utilizar uma reta que equacione essa relação. Por meio dessa reta, podemos prever valores que extrapolam os dados observados e que seguem a mesma variação. Para isso, precisamos conhecer as características e propriedades da função do 1º grau.

Função polinomial do 1º grau

Definição

Uma função será chamada de função do 1º grau (ou função polinomial do 1º grau) quando sua lei de formação tiver a forma:

Exemplos:

  1. f ⁣:RRf\colon \mathbb{R} \to \mathbb{R}, f(x)=2x+3f(x) = 2x + 3
  2. g ⁣:R+R+g\colon \mathbb{R}_+ \to \mathbb{R}_+, g(x)=4x+5g(x) = -4x + 5
  3. h ⁣:R+Rh\colon \mathbb{R}_+^* \to \mathbb{R}, h(x)=6xh(x) = 6x

Toda função do 1º grau também pode ser chamada de função afim.

Gráfico

O gráfico de uma função do 1º grau é uma reta. Para obtê-lo, precisamos determinar ao menos dois pontos, atribuindo valores para xx ou para yy.

Exemplos:

  1. {f ⁣:RRy=3x3\begin{cases} f\colon \mathbb{R} \to \mathbb{R} \\ y = 3x - 3 \end{cases}

    para x=0x = 0, temos y=303=3A(0,3)y = 3 \cdot 0 - 3 = -3 \to A(0, -3)

    para x=1x = 1, temos y=313=0B(1,0)y = 3 \cdot 1 - 3 = 0 \to B(1, 0)

    para x=2x = 2, temos y=323=3C(2,3)y = 3 \cdot 2 - 3 = 3 \to C(2, 3)

    xxyy
    03-3
    10
    23
  2. {g ⁣:RRy=2x+4\begin{cases} g\colon \mathbb{R} \to \mathbb{R} \\ y = -2x + 4 \end{cases}

    para x=0x = 0, temos y=20+4=4D(0,4)y = -2 \cdot 0 + 4 = 4 \to D(0, 4)

    para x=1x = 1, temos y=21+4=2E(1,2)y = -2 \cdot 1 + 4 = 2 \to E(1, 2)

    para x=2x = 2, temos y=22+4=0F(2,0)y = -2 \cdot 2 + 4 = 0 \to F(2, 0)

    xxyy
    04
    12
    20

Vale destacar, novamente, que apenas dois pontos são suficientes para definir as retas.

Coeficiente linear

Na função y=ax+by = ax + b, o termo independente bb (bRb \in \mathbb{R}) é chamado de coeficiente linear.

O coeficiente linear pode ser obtido fazendo-se x=0x = 0 ou observando o ponto em que o gráfico intersecta o eixo das ordenadas. Isso ocorre no ponto (0,b)(0, b).

Exemplos:

  1. y=3x3y = 3x - 3, temos b=3b = -3.
  2. y=2x+4y = -2x + 4, temos b=4b = 4.

Coeficiente angular

Na função y=ax+by = ax + b, o coeficiente aa é chamado de coeficiente angular.

Observando o gráfico a seguir da função y=2x+1y = 2x + 1 em que a=2a = 2, nota-se que, percorrendo a reta da esquerda para a direita, para cada aumento de 1 unidade no valor de xx, o valor de yy aumenta 2 unidades. Essa relação corresponde ao coeficiente angular da função.

O mesmo observa-se no gráfico a seguir da função y=12x+1y = -\dfrac{1}{2}x + 1 em que a=12a = -\dfrac{1}{2}. Novamente, percorrendo a reta da esquerda para a direita, para cada aumento de 1 unidade no valor de xx, o valor de yy diminui de 12\dfrac{1}{2} unidade. Isso ocorre porque o coeficiente angular é negativo.

Quando o coeficiente angular é positivo, a função é crescente; quando é negativo, a função é decrescente.

a>0a > 0 \to função crescente

a<0a < 0 \to função decrescente

Assim, o coeficiente angular mede a variação dos valores de yy em relação aos valores de xx.

Dados dois pontos (x1,y1)(x_1, y_1) e (x2,y2)(x_2, y_2), podemos calcular o coeficiente angular a partir de:

Exercício resolvido 1

Calcule o coeficiente angular da função do 1º grau que passa pelos pontos abaixo e verifique se a função é crescente ou decrescente:

  1. A(1,5)A(1, 5) e B(3,11)B(3, 11).
  2. C(4,10)C(4, 10) e D(7,5)D(7, 5).

Equacionando com a função do 1º grau

Para obtermos uma função do 1º grau, devemos conhecer pelo menos dois pontos do gráfico ou um dos coeficientes e um ponto do gráfico.

Exercício resolvido 2

Defina a função do 1º grau que passa pelos pontos (2,1)(2, -1) e (4,3)(4, 3).

Resolução 1:

Sendo a função da forma y=ax+by = ax + b, temos:

(2,1)1=a2+b(4,3)3=a4+b{2a+b=1(I)4a+b=3(II)\begin{array}{ll} (2, -1) \to -1 = a \cdot 2 + b \\ (4, 3) \to 3 = a \cdot 4 + b \end{array} \Rightarrow \begin{cases} 2a + b = -1 & \text{(I)} \\ 4a + b = 3 & \text{(II)} \end{cases}

Fazendo (II) - (I), temos: 2a=4a=22a = 4 \Rightarrow a = 2.

Substituindo a=2a = 2 em (I): 22+b=1b=52 \cdot 2 + b = -1 \Rightarrow b = -5.

Portanto, a função é y=2x5y = 2x - 5.

Resolução 2:

Vamos determinar o coeficiente angular:

a=3(1)42=42=2y=2x+ba = \frac{3 - (-1)}{4 - 2} = \frac{4}{2} = 2 \Rightarrow y = 2x + b

Substituindo (qualquer) um dos pontos na função, por exemplo (4,3)(4, 3):

y=2x+b3=24+bb=5y = 2x + b \Rightarrow 3 = 2 \cdot 4 + b \Rightarrow b = -5

Logo, a função é y=2x5y = 2x - 5.

Quando se diz que “uma grandeza varia linearmente com outra”, ou seja, que sua variação é constante, entendemos que há uma função do 1º grau que relaciona as duas.

Exercício resolvido 3

Suponha que a pressão atmosférica aumente 1 atm a cada 10 m de profundidade em um mergulho. Se na superfície do mar a pressão é de 1 atm, qual será seu valor a 22 metros de profundidade?

Exercício resolvido 4

A taxa de inscrição em um curso decresce linearmente com o tempo. Uma pessoa que se matriculou após 2 meses do início pagou uma taxa de R$ 186,00, e outra que entrou após 5 meses pagou R$ 150,00. Quanto pagaria uma pessoa após um mês do início do curso?

Raiz da função

A raiz da função do 1º grau é o valor de xx no ponto em que o gráfico “corta” o eixo das abscissas. Nesse ponto, temos y=0y = 0.

Exemplos:

  1. A raiz da função y=2x10y = 2x - 10 é o valor de xx para que 2x10=02x - 10 = 0, ou seja, x=5x = 5.
  2. A raiz da função y=3x+14y = 3x + 14 é o valor de xx para que 3x+14=03x + 14 = 0, ou seja, x=143x = -\dfrac{14}{3}.

Estudo do sinal de uma função

Estudar o sinal da função corresponde a analisar o sinal da variável yy para os intervalos de xx. Quando o gráfico está acima do eixo das abscissas, a função assume valores positivos; quando está abaixo desse eixo, ela assume valores negativos.

Conhecidos a raiz e o sinal do coeficiente angular de uma função, já temos as informações necessárias para elaborarmos o estudo do sinal.

Exemplos:

  1. y=2x8y = 2x - 8

    Sendo a=2a = 2 o coeficiente angular, concluímos que a função é crescente.

    A raiz da função é: 2x8=0x=42x - 8 = 0 \Rightarrow x = 4.

    O gráfico da função será da forma:

    Assim, o estudo do sinal da função será:

    {se x>4, enta˜y>0se x=4, enta˜y=0se x<4, enta˜y<0\begin{cases} \text{se } x > 4, \text{ então } y > 0 \\ \text{se } x = 4, \text{ então } y = 0 \\ \text{se } x < 4, \text{ então } y < 0 \end{cases}
  2. y=3x+9y = -3x + 9

    Sendo a=3a = -3 o coeficiente angular, concluímos que a função é decrescente.

    A raiz da função é: 3x+9=0x=3-3x + 9 = 0 \Rightarrow x = 3.

    O gráfico da função será da forma:

    O estudo do sinal da função será:

    {se x>3, enta˜y<0se x=3, enta˜y=0se x<3, enta˜y>0\begin{cases} \text{se } x > 3, \text{ então } y < 0 \\ \text{se } x = 3, \text{ então } y = 0 \\ \text{se } x < 3, \text{ então } y > 0 \end{cases}

Grandezas proporcionais

Ao obtermos pares ordenados (x,y)(x, y) que relacionam duas grandezas, se as razões xy\dfrac{x}{y} forem sempre iguais, diremos que essas grandezas são diretamente proporcionais.

Supondo que uma lanchonete venda doces a R$ 6,00, a quantidade de doces comprados e o valor a ser pago por eles são grandezas diretamente proporcionais.

Quantidade (xx)1234
Valor pago (yy)6121824

Note que 16=212=318=424=\dfrac{1}{6} = \dfrac{2}{12} = \dfrac{3}{18} = \dfrac{4}{24} = \ldots, ou seja, xy\dfrac{x}{y} é constante.

O gráfico dessa função é representado pela reta y=6xy = 6x, uma função do 1º grau passando pela origem.

Se essa mesma lanchonete passasse a cobrar uma taxa extra de R$ 5,00 de estacionamento, para quem fosse de carro ou moto, os novos valores pagos por esses clientes seriam:

Quantidade (xx)1234
Valor pago (yy)11172329

Note que 111217323429\dfrac{1}{11} \neq \dfrac{2}{17} \neq \dfrac{3}{23} \neq \dfrac{4}{29} \ldots e as grandezas não são mais proporcionais porque a razão xy\dfrac{x}{y} não é constante.

Se considerarmos a razão entre a variação da quantidade de doces e a variação dos valores a pagar, temos:

variac¸a˜o da quantidade de docesvariac¸a˜o dos valores a pagar=constante\frac{\text{variação da quantidade de doces}}{\text{variação dos valores a pagar}} = \text{constante}

Note:

211711=322317=432923=312311=412911==422917==16\begin{align*} \frac{2 - 1}{17 - 11} = \frac{3 - 2}{23 - 17} = \frac{4 - 3}{29 - 23} = \frac{3 - 1}{23 - 11} = \frac{4 - 1}{29 - 11} = {} \\ = \frac{4 - 2}{29 - 17} = \ldots = \frac{1}{6} \end{align*}

Concluímos que as grandezas xx e yy não são proporcionais, mas as variações Δx\Delta x e Δy\Delta y são diretamente proporcionais, ou seja, a cada aumento de uma unidade, a conta aumenta R$ 6,00.

O gráfico dessa função é representado pela reta y=6x+5y = 6x + 5, uma função do 1º grau que não passa pela origem.

Questões para praticar

Questões de vestibular dos assuntos deste capítulo.

Transcrição conferida com a obra original (Matemática I, Poliedro, p. 43-47). Revisada em 07/09/2026. Encontrou um erro? Reportar erro