Matemática I · Frente 3 · Capítulo 4 · p. 314-324 · Poliedro
Teorema dos senos e teorema dos cossenos
Para uma aeronave levantar voo são necessários diversos cálculos, entre eles o seu posicionamento enquanto está em navegação. Essa localização é calculada com o uso da tecnologia do Sistema de Posicionamento Global, mais conhecido como GPS, utilizando satélites e trigonometria. Isso se dá por meio da triangulação formada pelos sinais do satélite e da posição do receptor GPS dentro do avião.
A trigonometria no triângulo retângulo corresponde ao estudo das relações entre seus lados e ângulos.
Depois de estabelecido o padrão de cálculo regido pelas tabelas de senos e cossenos, sua aplicação foi estendida a todos os triângulos, mesmo os não retângulos, estudo que veremos neste capítulo.
Classificação dos triângulos
É possível classificarmos os triângulos de duas formas diferentes.
Com relação aos lados:
- escalenos: quando cada lado tem comprimento diferente;
- isósceles: quando dois lados apresentam o mesmo comprimento;
- equiláteros: quando todos os lados possuem o mesmo comprimento.
Com relação aos ângulos:
- acutângulos: quando todos os seus ângulos internos são agudos;
- retângulos: quando um de seus ângulos internos é reto;
- obtusângulos: quando um de seus ângulos é obtuso.
Uma importante relação entre os lados e os ângulos internos de um mesmo triângulo é que lados de comprimentos iguais sempre ficam opostos a ângulos de medidas iguais. Esse teorema da Geometria euclidiana garante, entre outras coisas, que os triângulos isósceles têm dois ângulos com a mesma medida e que todos os ângulos internos de um triângulo equilátero medem .
Contudo, quando se trata de um triângulo escaleno, assim como acontece com a medida dos lados, a medida dos ângulos internos são todas diferentes. Nesse caso, é sempre possível considerar em ordem crescente tanto a medida dos ângulos internos quanto o comprimento dos lados.
Desse modo, podemos enunciar que, em todo triângulo escaleno, o maior lado fica oposto ao maior ângulo interno ou que o menor lado fica oposto ao menor ângulo interno.
Neste capítulo, estudaremos como aplicar as razões trigonométricas nos triângulos escalenos.
Desigualdade triangular
Com relação às medidas dos ângulos internos, a única condição para a existência de um triângulo é que, somadas, elas resultem na medida de um ângulo raso.
Mas há algumas condições para a existência de um triângulo que dizem respeito ao comprimento dos lados. A primeira condição é que nenhum deles seja maior ou igual à soma dos outros dois; e a segunda é que nenhum deles seja menor ou igual à diferença absoluta dos outros dois.
Assim, para que um triângulo exista, todos os seus lados devem ter comprimentos que fiquem entre os valores da diferença e da soma dos outros dois. Então, sendo os comprimentos dos lados de um triângulo, temos:
A demonstração dessas desigualdades pode ser obtida por contradição ou por absurdo, como é mais conhecido esse tipo de argumento. Essas desigualdades têm que ser verdadeiras, pois sua falsidade contraria o conceito euclidiano da distância mínima entre dois pontos sobre uma superfície plana. Essa distância é igual ao comprimento do segmento de reta que os une (primeiro postulado).
Afinal, se, em um triângulo ABC com , e , fosse verdadeiro que ou , então a menor distância entre os pontos B e C não seria mais o comprimento do segmento , por exemplo.
Na prática, para garantir a existência de um triângulo com lados de comprimentos , e , basta verificarmos as desigualdades de uma das linhas do sistema.
Mesmo que não saibamos a ordem crescente das medidas , e dos lados de um triângulo, é possível expressarmos a desigualdade triangular usando a função modular, que, nesse caso, serve para representar a diferença absoluta entre dois comprimentos. Dessa forma, pode-se garantir a existência de um triângulo verificando apenas uma das desigualdades do sistema, por exemplo:
Exercício resolvido 1
Verifique se existe um triângulo ABC com lados medindo 9 cm, 11 cm e 6 cm.
Exercício resolvido 2
Verifique se existe um triângulo ABC com lados que medem 5 cm, 3 cm e 9 cm.
Exercício resolvido 3
Em um triângulo ABC com , e , determine:
- o intervalo de variação da medida do lado ;
- o maior e o menor dos valores inteiros que pode assumir.
Valores de senos e cossenos de ângulos obtusos
Como nenhum ângulo interno de um triângulo retângulo pode medir mais do que , as razões trigonométricas seno e cosseno dos ângulos obtusos não podem ser compreendidas como quocientes entre os comprimentos de catetos e hipotenusas.
Para facilitar a compreensão dos conceitos de seno e cosseno de ângulos obtusos, vamos explorar o problema de encontrar a altura de um triângulo escaleno ABC.
Consideremos que os lados de um triângulo sejam e e sua base e que a figura a seguir o represente:
Agora, nossa estratégia será traçar, pelo ponto A, uma reta perpendicular à base para obter a altura do triângulo e os triângulos retângulos AHB e AHC. Também indicaremos com o comprimento dessa altura e com o comprimento do segmento .
Aplicando o teorema de Pitágoras nos triângulos retângulos da figura, obtemos:
- (equação I)
- (equação II)
Desenvolvendo o produto notável na equação II, encontramos:
Observando que os últimos termos dessa equação formam o primeiro membro da equação I, temos:
Assim, concluímos que , mas isso não pode estar correto, pois não existem comprimentos negativos na Geometria euclidiana.
Nesse ponto, podemos querer revisar cada linha da álgebra usada na resolução ou fazer a correção das aplicações do teorema de Pitágoras, mas o fato é que a figura utilizada para representar o triângulo ABC está incorreta. Note também que , com , implica , que é uma informação contraditória quando observamos a figura inicialmente desenhada.
O erro foi presumir que ABC era um triângulo acutângulo e, assim, representar a altura na região interior do triângulo.
Uma figura adequada para a representação do triângulo de lados , e seria:
Aplicando novamente o teorema de Pitágoras nos triângulos retângulos da figura, obtemos:
- (equação I)
- (equação II)
Veja como a mudança no sinal da expressão entre parênteses na equação II altera o restante da resolução algébrica do sistema:
Então, depois de corrigida a incoerência inicial da figura, é seguro usar o valor de na equação I para encontrar a altura do triângulo:
Não só o problema foi resolvido como uma nova porta se abriu na interpretação dos números que representam entes geométricos.
Na época de Euclides, os números negativos ainda não haviam sido devidamente incorporados à Matemática. Mas, quando isso aconteceu, muito tempo depois, a Geometria começou a se apropriar dos aspectos analíticos que eram oferecidos pelos números menores do que zero.
Um desses aspectos é o de se interpretar como a indicação de que o segmento desenhado no interior de um triângulo esteja, na verdade, exterior ao triângulo.
Uma vez admitida a equivalência dessas figuras, do triângulo ABH na primeira figura podemos deduzir que:
E, do triângulo ABH na segunda figura, que:
Assim, conseguimos uma interpretação para os senos e os cossenos dos ângulos externos não retos de um triângulo retângulo.
Relações entre senos e cossenos de ângulos suplementares
Dois ângulos são suplementares sempre que a soma de suas medidas resultar na medida do ângulo raso (). Quanto aos senos e cossenos desses ângulos, a interpretação analítica das medidas positivas e negativas dos segmentos de reta nos permite afirmar que:
- Ângulos suplementares possuem o mesmo seno.
- Ângulos suplementares têm cossenos opostos.
Assim, sendo e as medidas, em graus, de dois ângulos geométricos, então:
Em relação aos senos, a interpretação analítica nos permite concluir que:
Como , essa interpretação, no que se refere aos cossenos, permite concluir que:
Particularmente no caso dos ângulos retos, essa relação implica:
Então, considerando a relação fundamental da trigonometria , é possível deduzirmos que , mas não podemos concluir, apenas com base nos argumentos expostos até aqui, que o seno do ângulo reto vale ou .
Por outro lado, é fato que, nos triângulos retângulos, o seno de um ângulo de medida depende do comprimento do seu cateto oposto no triângulo e do comprimento da hipotenusa, que é sempre o maior lado.
Além disso, quanto maior for o valor de , maior também será o comprimento do seu cateto oposto e menor a diferença do comprimento do cateto e da hipotenusa do triângulo.
Em triângulos retângulos com ângulos agudos muito próximos de , a razão entre o cateto oposto e a hipotenusa fica bem próxima de 1. Assim, não há motivo aparente para desconfiarmos de que o seno do ângulo reto possa ser negativo como os cossenos dos ângulos obtusos.
Dessa forma, a tabela com os senos e cossenos dos ângulos notáveis pode ser ampliada incorporando os valores para o ângulo reto e alguns obtusos:
Relações trigonométricas em triângulos quaisquer
Estender os conceitos estabelecidos pelas razões trigonométricas para além dos triângulos retângulos de forma satisfatória não seria possível sem que fossem incorporadas as interpretações dos senos e cossenos dos ângulos obtusos. Caso contrário, os triângulos obtusângulos ficariam de fora da extensão.
Conhecidos como leis dos senos e dos cossenos, os teoremas demonstrados a seguir compõem as mais eficientes regras de aplicação das razões trigonométricas em triângulos de qualquer tipo.
Teorema dos senos
Os lados de um triângulo são diretamente proporcionais aos senos dos seus ângulos opostos, e a constante dessa proporcionalidade equivale ao dobro do raio da circunferência circunscrita do triângulo.
A aplicação do teorema dos senos pode se tornar mais eficiente observando a possibilidade do uso dos senos tanto dos ângulos internos quanto dos externos nas proporções enunciadas, pois, sendo , e as medidas dos ângulos internos de um triângulo, então seus ângulos externos medem , e , com:
Portanto, como ângulos suplementares têm os mesmos senos, obtemos:
Exercício resolvido 4
Determine a medida do lado oposto ao ângulo de de um triângulo inscrito em uma circunferência com cm de raio, como mostra a figura a seguir.
Exercício resolvido 5
Os ângulos internos da base do triângulo ABC medem e . Determine o comprimento aproximado do lado oposto ao ângulo de sabendo que a base desse triângulo mede 28 cm.
Use e .
Exercício resolvido 6
Em um triângulo ABC, o seno do ângulo interno do vértice A é igual a . Se os lados e medem, respectivamente, 52 cm e 26 cm, determine a medida do ângulo interno do vértice B.
Exercício resolvido 7
UFG-GO Observe a figura a seguir, em que estão indicadas as medidas dos lados do triângulo maior e alguns dos ângulos.
O seno do ângulo indicado por na figura vale:
Teorema dos cossenos
Em qualquer triângulo, o quadrado de um dos lados equivale à soma dos quadrados dos outros dois menos o dobro do produto entre esses dois lados e o cosseno do ângulo que eles formam.
Exercício resolvido 8
Determine o comprimento do lado oposto a um ângulo de em um triângulo ABC, com cm e cm.
Exercício resolvido 9
Na figura, os lados e formam um ângulo de .
Determine o valor de .
Exercício resolvido 10
Em um triângulo ABC, , e , determine a medida .
Diagonais do paralelogramo
Considere um paralelogramo de lados e e cujos ângulos agudos medem .
Observe que a diagonal menor do paralelogramo fica sempre oposta aos ângulos agudos.
Assim, sendo a medida dessa diagonal menor, conforme o teorema dos cossenos no triângulo em destaque, temos:
Então, como , uma expressão para a medida da diagonal menor de um paralelogramo é:
em que e são os lados do paralelogramo, e é a medida de seus ângulos agudos.
Note agora que a diagonal maior de um paralelogramo fica sempre oposta aos ângulos obtusos dele.
Assim, sendo a medida dessa diagonal maior, como a medida dos ângulos obtusos desse paralelogramo pode ser expressa por , obtemos, de acordo com o teorema dos cossenos no triângulo em destaque:
Então, como e , uma expressão para a medida da diagonal maior de um paralelogramo é:
Exercício resolvido 11
Determine as medidas das diagonais de um paralelogramo cujos lados medem 2 e e cujos ângulos agudos medem .
Cevianas de triângulos
Todo segmento de reta que une o vértice de um triângulo a um ponto da reta que contém o lado oposto a esse vértice é denominado ceviana do triângulo.
Em um triângulo ABC, as cevianas com uma extremidade no vértice A, por exemplo, têm a outra extremidade em algum ponto da reta suporte do lado .
Na figura, todos os segmentos são cevianas relativas ao vértice A do triângulo.
Da mesma forma, existem as cevianas do vértice B, que têm uma extremidade em B e a outra na reta , e também as cevianas do vértice C, que têm uma extremidade em C e a outra na reta .
Entre as cevianas mais importantes de um triângulo estão os próprios lados do triângulo, suas alturas, suas bissetrizes internas e externas e suas medianas.
Cada ceviana dessas possui uma propriedade particular. Sem os lados, não há triângulo; as alturas são úteis no cálculo da área do triângulo; as bissetrizes internas e externas têm seus teoremas específicos; e as medianas apresentam a propriedade de dividir o triângulo em áreas iguais.
O teorema dos cossenos é uma ferramenta muito útil para encontrar o comprimento de uma ceviana. Acompanhe no exercício resolvido a seguir.
Exercício resolvido 12
Na figura, determine a medida da ceviana do triângulo ABC.
Teorema das cevianas
Em um triângulo, quando três cevianas se intersectam no mesmo ponto, elas dividem os lados do triângulo em razões cujo produto é unitário.
Esse teorema foi provado, em 1678, pelo geômetra e engenheiro italiano Giovanni Ceva (1646-1734) – daí o termo “ceviana”, criado em homenagem a ele. Por isso, o teorema também é conhecido como teorema de Ceva.
Exercício resolvido 13
Em um triângulo ABC, de base , M é o ponto médio do lado e o ponto D divide o lado de modo que . Além disso, os segmentos e se intersectam no ponto F, e a reta intersecta o lado no ponto E.
Determine o comprimento do segmento .
Teorema de Menelaus
Se três retas determinam um triângulo ABC e uma quarta reta intersecta as retas , e , respectivamente, nos pontos D, E e F, então
Esse teorema foi demonstrado pelo geômetra e astrônomo Menelaus de Alexandria por volta do século II d.C.
Exercício resolvido 14
Em um triângulo equilátero ABC de lados medindo 12 cm, P é um ponto do lado tal que cm e Q é um ponto do lado . Sabendo que o ponto R, de interseção das retas e , é tal que cm, determine o comprimento do segmento .
Questões para praticar
Questões de vestibular dos assuntos deste capítulo.
Transcrição conferida com a obra original (Matemática I, Poliedro, p. 314-324). Revisada em 07/09/2026. Encontrou um erro? Reportar erro